18.9.15

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Foto: Face Of The Man – George Hodan

 

Quando me ponho de fora de mim observo, aparvalhado, aquilo que sou. Tornei-me bem diferente daquilo que imaginei. Nem para melhor nem para pior. Apenas diferente. Como quando existe uma projeção e a realidade sai completamente ao lado dessa projeção.

Há momentos na vida em que paramos e fazemos balanços. Fazemos uma espécie de introspeção para tirarmos conclusões sobre a nossa vida e nos sintonizarmos com a nossa identidade. Quem sou eu, afinal? Quem tenho sido? É mesmo este o gajo que quero ser? Serei assim daqui em diante? São perguntas às quais nunca encontro respostas definitivas e fechadas. Vou encontrando algumas, mais referentes a ações do que propriamente a conceitos: “o que fizeste naquela situação não foi ajustado aos teus valores” ou “podias ter cedido naquela conversa, em vez de te teres dedicado imbecilmente a defender o teu orgulho” ou ainda “podias ter parado para ajudar aquele rapaz”…

Por vezes julgo ser duas pessoas: uma que me idealiza e outra que age como que levada por uma onda, dependente do movimento do mar. Porque nem sempre faço aquilo que está certo ou, pelo menos, que está de acordo com aquilo que a minha consciência defende. A primeira é mais livre, projeta-me nas situações e imagina a minha atuação segundo a educação e os valores que recebi; a segunda está envolta numa densa massa de regras competitivas, que me leva a dar primazia à minha posição social, em detrimento parcial (e nunca total) dos tais valores que me formam e me identificam. No fundo, sou a junção de duas consciências que, por vezes, parecem ser mutuamente opostas e exclusivas: uma individual, minha, que atua sempre corretamente no abstrato e hipotético; e outra coletiva, social, que atua em circunstâncias para as quais não estou devidamente preparado e que me leva a tomar comportamentos diferentes daqueles que tomaria se não tivesse que defender o meu estatuto ou os meus interesses (alguns egoístas) junto dos outros.

Quando eu era idealista – adolescente, portanto – não me via a trair os meus princípios em nenhuma circunstância. Eu sou eu em qualquer contexto e tal… Mas depois constatei que a vida não é assim tão transparente, tão preto no branco, tão óbvia, para poder dar-me ao luxo de ser firme e constante. Sou o que sou ao sabor da corrente, não o que quero ser. Sou a minha consciência coletiva. E isso importa-me? Nem por isso, porque vale-me a ideia de que ponho sempre um pouco da minha consciência individual em tudo o que faço, mesmo que não queira, porque também sou a minha consciência individual.

No entanto, as experiências de Solomon Asch (sobre a conformidade ao grupo) e de Stanley Milgram (sobre a obediência), bem como outras teorias que se lhes sucederam como, por exemplo, a de Brad Bushman (sobre a agressividade associada ao narcisismo) ou lhes antecederam, nomeadamente a de Émile Durkheim (sobre o facto social e a consciência coletiva), vieram revelar-me a chocante realidade: a de que vivo na permanente ilusão de que sou o autor do que, afinal, se impõe a mim de fora. Sou autor de coisa nenhuma, nem do meu comportamento, nem mesmo do meu pensamento. Faço parte de um sistema que tem vida própria, que me abriga e me confere proteção. Fui formatado desde a nascença para caber nele, comendo, bebendo, vestindo e falando do modo que me foi imposto, para que hoje mantenha hábitos consonantes com as regras desse sistema. Para me manter dentro dele, fazendo parte deste todo estruturado e coeso, basta que cole a minha opinião e as minhas decisões às da maioria. Assim, face a assuntos fraturantes de interesse nacional ou regional, posso ter uma posição pessoal e outra coletiva, desde que, no final, aja de acordo com a coletiva. Ser-se um bom cidadão nem sempre é fácil.

 

Joel Cunha

 

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