23.9.16

Clock-GerdAltmann.jpg

Foto: Clock - Gerd Altmann

 

Logo à nascença, é-nos atribuído como companheiro de vida-toda, uma figurinha estranha, um diabinho muito peculiar - meio volátil, meio volúvel, meio sombra, meio raio (-que-o-leve).

Enquanto pequeninos, limitamo-nos a brincar com ele, inocentemente, e deixar que alguém o domine por nós. Depois, aos poucos, mais cedo ou mais tarde, queremos tomar-lhe as rédeas. Com mais ou menos conflitos e tropeções, todos temos pressa de ser amos do nosso próprio Tempo - sofregamente, sem gastar nem um minutinho precioso a aprender a compreendê-lo e a ouvir os conselhos de quem já aprendeu a respeitá-lo, ou de quem o aprisiona cruelmente no sótão, cheio de mofo e bolor... Nem sei se "Gestão do Tempo" consta dos currículos académicos da Vida. Talvez não, ou talvez ninguém esteja interessado. Talvez o Tempo não seja uma coisa com a qual se aprenda a lidar, por ser tão volátil e temperamental. Ele é matreiro, escapa-se-nos entre os dedos, brinca às escondidas nos ponteiros dos relógios (vã tentativa humana de o domesticar!), disfarça-se de Dia e de Noite, finta-nos com os enganadores recomeços - do ano, das estações, das fases com faces novas. Como podemos dar-lhe palavra de ordem, fazê-lo esperar, dizer-lhe que corra, quando temos pressa, mandá-lo ter paciência, quando temos preguiça, enfim, decidir da sua sorte em nosso favor, já que temos que arcar com ele agarrado a nós? Isso deve ser ciência para mentes muito evoluídas e organizadas e divididas em compartimentos estanques, para não haver possíveis perdas de tempo. Não para a minha, com certeza. Refrear o Tempo, acompanhá-lo a compasso ou mantê-lo escrupulosamente aparado, nunca foi a minha arte.

 

Jogá-lo, jogar com ele, sim, é o meu passatempo predileto. E a culpa nem é de quem me deu as lições, não. A minha fada-madrinha bem me dizia: “Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje!” - que é como quem diz: “Tem sempre (o) tempo à mão para qualquer percalço, previne-te contra atrasos no cumprimento dos deveres que tens com ele, paga-lhe todos os segundos com honra, não regateies com ele o teu futuro, foge à tentação de correres à frente dele, ou, principalmente, de ficares para trás!”. Toda a culpa é só minha, mesmo! Ou então, da qualidade do Tempo que me foi atribuída à nascença...

Se calhar calhou-me por fado um Tempo de fraca qualidade, não sei; um Tempo espírito de contradição, um Tempo demasiado diabrete, ou um Tempo apressadinho, que ninguém quis! O certo é que nunca tive uma relação muito equilibrada e salutar com esse fulano!

E então... pronto, confesso, fui caindo na cilada da rezinguice e teimosia e passei, desde muito cedo, a irritá-lo, a desafiá-lo, a esconder-me dele nos vagares e a correr atrás dele nas urgências. Dá-me um prazer fininho, sei lá, esticar a corda, esticar, esticar... e depois, quando o relógio dele fica sem corda, largá-la de repente. Pim! Jogo tudo, nessas pressas: o meu talento, o meu esforço, o meu sangue e a minha honra. É estimulante, que querem? Saber que está tudo em jogo e que eu consigo vencer o próprio Tempo. É vertiginosa a sensação de fio da navalha a passar-me a micromilímetros do sucesso. É inspirador. É excitante. É gratificante. E arriscado.

Pois. Confesso. Sou viciada – jogo alto. E às vezes até peço emprestado. Endivido-me. Sei que não devo, mas devo. Devo muito à minha maior credora, a minha Vida. Mas quero pagar tudo, tudinho, isso quero. E, acreditem, o que, muitas vezes, me mantém viva é essa determinação, a de não morrer sem pagar à vida todas as minhas dívidas.

E vou esperando ouvir o “croupier” dizer: “Faites vos jeux!”. E vou ganhando tempo ao Tempo.

 

Teresa Teixeira

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:30  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Estefânia Sousa Martins

Fernando Couto

Fernando Lima

Jorge Saraiva

José Azevedo

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Vanessa Santana

Setembro 2016
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3

4
5
6
7
8
9

11
13
15
16
17

18
20
21
22
24

25
27
28
29


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: