18.6.14

 

Foi sempre inesperado, mesmo quando estava a contar. Já passei por tudo o que posso imaginar, apesar de saber que pode haver mais à espera, mais que não sei ou não quero imaginar.

Tu ficaste doente, e tu também, e em ambos os casos pareceu-nos disparatado e desadequado e achamos que, com a idade que tinham, não nos iam morrer assim. E tu, a mim pareceu-me que foi uma overdose, mas não se pode falar no assunto porque ninguém consegue sequer pôr a hipótese de que pode ter sido. E lá saíste da minha vida de um momento para o outro, ainda mais novo que os outros, e pareceu-me feio e injusto. E tu e tu, vocês já tinham “idade”, seja lá isso o que for, e percebe-se que com essa idade se calhar já estamos a contar, mesmo não querendo e mesmo sabendo que vai doer. No teu caso então, já estavas mesmo a pedir, literalmente. Porque já tinhas ficado sem tanta gente que amavas, porque já não vias sentido, porque já estavas cansada e sentias-te a ser punida por um crime qualquer.

E tu, tu eras só um periquito, e não estou a ser metafórica nem estou louca. Eras o meu periquito e pousavas na minha perna ou no meu ombro, ou ficavas preso no meu cabelo enquanto eu estudava coisas aborrecidas no quarto. E calavas-te quando eu me calava e fazias uma barulheira monumental se eu falava, se estivesse ao telefone então, nem me deixavas ouvir a minha voz.

Todos vocês estão ausentes. Às vezes sei isso, outras nem por isso. Contigo, demorei três anos a apagar o teu número de telemóvel da minha agenda, porque me parecia que te ia matar e que, enquanto o teu número estivesse ali, podias aparecer a qualquer momento. E contigo nem consegui acreditar e ainda me lembro de ti no caixão, com um ar calmo e quase feliz, como se tivesses atingido o nirvana, e se calhar atingiste mesmo. E de ti, nem me lembro de nada, como foi ou deixou de ser. Sei que sinto a tua falta. Tu, bem tu foste, e eu só soube depois. Houve decisões tomadas e nem cheguei a despedir-me, e nunca fui ver onde dizem que está o que resta de ti. Não sei o que fazer com isto, com esta despedida que não foi, e com o pressentimento que tive de que não te tornava a ver a última vez que te abracei. E tu, foste cremada. E eu só me lemro do caixão a desaparecer e de pensar como tinha sido bom para ti ir, porque querias tanto ir.

Mas vocês continuam aqui, todos.

Tu ensinaste-me a gostar de banda desenhada e a interessar-me por vinhos e a perceber do assunto. E tu, tu fizeste-me gostar de música e apetecia-me ter aprendido a tocar piano, mas não aconteceu. Mas mostrava-te os meus poemas e tu tinhas sempre coisas lindas para dizer, e eu não parei mais. Tu aí não estiveste nunca muito tempo comigo, porque as nossas vidas eram muito diferentes, mas eras bom e meigo e eu pensava que queria ser como tu quando fosse grande. E vocês as duas, tão diferentes e tão parecidas, foram modelos para mim, fortes, resistentes, determinadas, lutadoras.

E de todos vocês, ficou-me o sentido de humor… e muito amor.

Em alguns momentos, sinto muito a vossa falta, de todos juntos ou de um de cada vez. E apetece-me a vossa presença. E penso o que fariam, o que diriam, como reagiriam nos momentos que a vida nos põe à frente. E vocês lá vêm ajudar, dentro da minha cabeça.

Não sei como me despedir. Por isso, não o faço. Vocês estão todos aqui, onde eu estou. Até o estúpido do periquito.

 

Dora Cabral

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:00  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Junho 2014
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
12
14

15
17
19
21

22
24
26
28

29


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: