Recordo-me bem do meu primeiro dia na Primeira Classe. Lembro-me, também, que o meu amigo Bernardo da turma do infantário, que tinha um primo que era mais velho que nós e que nos avisou que “a primeira classe é muito difícil!”. Lembro-me tão bem como se fosse hoje: a minha mãe enorme (aos meus olhos e centímetros), a sua mão a levar a minha, pequena, até à porta do fundo do corredor; aquela porta lacada (e lascada) de branco, quatro vitrais tapando a vista para uma imensa sala com paredes cor de azeitona, duas grandes janelas de cima abaixo virados para o recreio, e 36 alunos prontos para a próxima etapa das descobertas.
O momento, na minha memória e alma, é tão cerimonioso como outro sacramento qualquer. A intensidade é a mesma que o cheiro a jasmim que exalava por todo o estabelecimento de ensino onde estudei durante 14 anos. Assim como as freiras vestidas de negro, molhes de chaves à cinta, olhar circunspeto. Algumas não eram assim. Tantas eram mais que isso… A diretora era a Ma Mére… E era mesmo.
Mas não poderei esquecer esse mesmo dia e todo o peso de um cruxifixo por cima do quadro de ardósia, um Cristo – pobre Cristo de costas largas – que nos ensinaram a temer e a pensar “Se faço asneiras ele lixa-me”. As revistas pousadas na secretária, de teor cristão (e nós ainda sem saber ler)… E a cabeleira cor-de-canela dela.
A primeira vez em que verdadeiramente a minha mãe me deixou a alguém como quem deixa uma filha a outra mãe. E ela, a minha professora da minha infância, tinha uma cabeleira cor-de-canela preciosamente penteada em caracóis, uma bata imaculada e passada a ferro, sem vincos. Um sorriso nos lábios e nos olhos. Uns óculos que deixavam, na mesma, transparecer das maiores genuinidades que conheci em toda a minha Vida.
Albertina, era ela. Casada com o Ensino, sem réguas nem palmadas. Todas as manhãs, nas tenras manhãs de 1985, fazia connosco meditação – num colégio franciscano. Por todas as vezes que existia uma asneira, existia uma compreensão – autoritária, também, mas de voz doce. Nunca castigava. Reconhecia e reforçava. Tinha uma paciência de Jó com a minha matemática e com a Marta, a minha colega de carteira que passava a vida a adormecer. Sorria a todos. Ensinara já o meu tio, acarinhava-me como se fosse da minha família. Minha e dos restantes 35 mirins que por lá andavam. Guardo saudades desses tempos como quem come cerejas: quando vem uma recordação vem mais uma e outra, bem direta do coração. Como a minha professa ainda está. Em mim e em tantos.
Saiu do estabelecimento em discordância – ironia das ironias – com aqueles propósitos franciscanos. Mas dela mantive sempre contacto. Foi através dela que conheci o parceiro da minha vida, o companheiro dos meus dias atuais, outro colega de carteira que guarda o mesmo afeto que eu. Ficou feliz quando soube do nosso casamento e da herança filial que já temos. E a herança dela, involuntariamente e inevitavelmente, é passada para o nosso filho.
Perdoem os entendidos a minha homenagem bacoca. Educação é um tópico tão vasto, puxa sempre para a nossa intelectualidade. Mas parte da minha Educação vem dela: aquilo que sou, os meus princípios, a minha moral, a minha consciência; tudo terá um dedo dela. E as palavras saíram-me espontaneamente neste pedaço de texto.
E porque aquilo que damos, aquilo que criamos, aquilo que educamos, vem também de quem nos dá e de quem nos deu. Sobretudo quando é dado com a alma inteira.
Sofia Cruz