29.10.18

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Foto: Act - Kai Kalhh

 

Lembram-se daquela história do tio Hans, que todas as nossas avós nos contaram em pequeninos? Sim, aquela do rei vaidoso que foi na conversa de dois vigaristas e deu um dinheirão por um fato invisível.  Sim, esse.  Bem, na verdade, como sabem, o fato não era invisível, que isso é coisa que, até hoje, ainda ninguém inventou.  Nem sequer transparente, nada disso – o tecido de que era feito era, apenas... inexistente.  Uma patranha, portanto.  Uma tanga, uma treta muito bem urdida, para, não só extorquir dinheiro ao tal do rei vaidosão, mas também fazê-lo cair no ridículo, levando ao extremo a sua sede de excelência ímpar, de elegância, e de inteligência – claro, segundo ele, acima de todos os olhares e de todos os conceitos.

Mas o maior problema desse mui nobre senhor (que eu sempre imaginei gordo e com dentes amarelos) nem era a vaidade, porque essa é natural e abnóxia.  O grande problema era a sua doentia necessidade de adulação, de endeusamento.  E, claro, a sua leviandade de espírito, pronto a ser mais facilmente seduzido pela mentira e hipocrisia que pela verdade e honestidade.   Não havia nele um pingo de respeito pelos seus súbditos – nobres ou plebeus, ministros que o assistiam, ou gentalha incógnita que o sustentava.

Reza a história antiga que o desgraçado pagou caro, pelo seu deslumbramento e fé no invisível escudo que, afinal, o não protegeria da inteligência dos hipócritas e da inocência do medo: bastou uma criança. Bastou uma criança esfarrapada e ranhosa, ingénua e honesta, para deitar por terra todo o embuste e fazer desmoronar o dique de silêncio podre que segurava os risinhos dissimulados e as palavras de escárnio. 

 

“O rei vai nu!” – quem dera que fosse sempre assim tão fácil desmascarar a mentira e por a nu a verdadeira pele da verdade.  Quem dera que o tecido da dúvida não fosse uma teia intricada e invisível... mas uma malha apenas transparente.

À cautela... vista-se sempre à verdade roupa de dentro bem bonita.  E limpinha.

 

Teresa Teixeira

 

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26.10.18

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Foto: Girl - Anastasia Borisova

 

Ao longo dos anos, fui-me sentindo cada vez mais grata pelos relacionamentos reais, profundos, sem máscaras, que enriqueciam a minha vida. Eram tão raros que a sua simples existência – de um que fosse, esporadicamente –, era suficiente para sentir validada a minha fé no dia seguinte, nos outros e, inevitavelmente, em mim própria. Contudo, perceber a fragilidade dos outros não me permitiu antecipar (ou acarinhar) a minha própria fragilidade. Num mundo onde um elevado número de pessoas vive, única e exclusivamente, em torno do seu umbigo, é muito perigoso não nos cuidarmos, em primeiro lugar. Quando caímos, a menos que tropecem em nós, são poucos aqueles que sentem a vibração da queda e nos vão procurar, sem pensar duas vezes. Essa é a realidade. A esses, eu chamo “tribo da alma”. Uma espécie de lugar seguro onde se entra sem máscaras ou rótulos, e se é amado na totalidade do Ser. Sobretudo naqueles dias em que não nos conseguimos amar… Na expansão da mente e do coração, a tribo vai crescendo também. Pertencemos (sempre que possível, escolhemos estar), pela frequência silenciosa que vibra debaixo da nossa pele, muitas das vezes, sem sequer o percebermos. A magia da vida.

Gosto tanto da minha individualidade, da minha jornada em mim própria, dos meus momentos em silêncio, quanto aprecio a partilha, a comunidade, a sensação de pertença, de escolha e de ação. Gosto da pertença, sim, porque, só livre, se pode pertencer. Escolher estar, lembra-me que jamais me devo acomodar ao que me faz mal, ao que me rouba a paz ou me estende ao comprido. Só inteira posso pertencer porque ninguém me pode dar o que não sou capaz de dar a mim própria. Pessoas inteiras têm vidas fragmentadas também, malhadas no calor da bigorna da existência, mas escolhem, todos os dias, ser a pessoa de quem precisam. Há pessoas de quem faço parte e que fazem parte de mim. Pessoas com quem adoro estar e que me fazem sentir em casa, mesmo que não nos possamos abraçar ou falar, durante muito tempo. Agarro-me a elas com braços e pernas, lembro-lhes o quão importantes são para mim, valorizo a nossa transparência, nos sentimentos, nos pensamentos, nas ideologias diversas que fazem parte, também, do nosso espólio mental e visceral. Chamo a isso honestidade, lealdade, respeito e integridade. Para mim, constituem os vetores mais importantes no que toca à existência de pessoas na minha vida privada. Sem eles, fico perdida, sem rumo e sem vontade.

 

Aos poucos, houve gente de quem me fui afastando porque não faziam qualquer sentido na minha vida. Falavam de valores, pregavam a justiça, a coerência e a compaixão, mas, na prática a teoria era outra. Vezes sem conta. E quando aquilo a que chamo valores, depende de quem faz o quê e a quem, não são realmente valores, são apenas conceitos vazios e abstratos que uso quando me dá jeito. Não consigo respeitar a falta de congruência, a injustiça, a maldade ou o comodismo da ignorância. Nada nem ninguém pode construir camadas dentro de mim se não sabe viver para lá do seu umbigo ou se dedica a ferir o seu semelhante. Sem aquilo que para mim é importante, nenhum pacote promocional me seduz. Nem sempre foi fácil fazer esta triagem, mas, em nome da dita transparência, ganhei coragem para virar as costas, sempre que possível, assim que possível. Fosse família, amigos, conhecidos. Fosse quem fosse. Contudo, demorei décadas a assimilar tudo isto e a agir sem me sentir totalmente culpada pelo sofrimento dos outros. Como se as dores do mundo fossem minha responsabilidade e, virar-lhes as costas, fizesse de mim uma megera. Embora progressivamente consciente, foi um tremendo desafio separar, eficazmente, a ação necessária à mudança, da programação mental (deficitária) previamente instalada. Mas, finalmente, percebi que ninguém salva ninguém que não quer ser salvo. Ninguém. E que há gente que permanece, sim, enquanto poder alimentar-se da nossa energia, do nosso tempo e da nossa vontade. Por mais que me tivesse custado, hoje não é algo que me tire o sono, o apetite ou me aperte o coração. Fechar portas que não levam a lado nenhum, tem sido das melhores aprendizagens da minha vida.

 

Aqueles que permanecem, para quem a minha porta está sempre aberta, são-me muito preciosos. São muito menos do que pensaria há poucos anos, mas são exatamente aqueles que me acrescentam tudo. Amo-os, tal e qual como são, e construo a seu lado um caminho sólido nos afetos, nos desafios que todos enfrentamos (e que nos podem mudar, num pestanejar), bem como nas decisões que resultam de tudo isto. Algumas das pessoas mais importantes da minha vida não podiam ser mais diferentes de mim, e entre si, mas com cada uma delas encontro a linguagem comum que nos faz permanecer. Revejo nelas os mesmos vetores que me movem e é-me suficiente para caminhar mais tranquila. Mas hoje, que sei mais um bocadinho, reconheço que, com alguns amigos, existimos porque não dizemos tudo, porque sabemos calar-nos para não ferir. São amizades, tão belas quanto frágeis, que devem ser protegidas das arestas afiadas da incompreensão e da injustiça, em nome dos valores (reais, sustentados pela ação) que as alicerçam. Dizem que não há pessoas perfeitas ou relações perfeitas, na verdade, isso não me importa nem um bocadinho. Sacrifico qualquer momento de razão, qualquer dor mal resolvida, em nome das pessoas “imperfeitas”, mas absolutamente íntegras, que tenho a honra de ter ao meu lado. Não quero começar discussões que vão apenas magoar, tão pouco desejo alimentar expetativas irreais – neles ou em mim própria. Não quero perder aqueles a quem chamo irmãos, irmãs, companheiros de uma vida. Prefiro ter paz com eles e aceitar que preservar o bem maior, implica abdicar de alguma dessa transparência que tanto aprecio, escondida por detrás das muralhas que as pessoas erguem.

 

Dizia Francisco Xavier: “Aos outros, dou o direito de ser como são. A mim, dou o dever de ser cada vez melhor.”. Continuo a aprender a estar com os outros, mas, dentro de mim, não permito mais portas fechadas ou quartos secretos; devo essa honestidade a mim própria, mesmo quando doer. Ao mundo, não peço (mais) nada. Já me sussurrou, diversas vezes, que o tempo será curto para todos nós e mais veloz do que imaginamos.

 

Alexandra Vaz

 

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22.10.18

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Foto: Light-bulb - Jukka Niittymaa

 

- Luz, quero mais luz! Dai-me luz!

Urgiu, nas suas últimas palavras, reza a lenda, Goethe, no seu leito de morte, para com quem o acompanhava.

Mas a morte, surda, cega, opaca, não deixou passar a luz.

Ver, no sentido de saber, conhecer, é viver. Para ver precisamos de fazer com que a luz chegue até nós, sem obstáculos.

 

A falta de luz, assim tal e qual, deixa muitas criancinhas, com medo do escuro. O desconhecido faz-lhes medo, torna-as inseguras, ansiosas. Precisam de uma luzinha, de presença que seja, para se sentirem no controlo e poderem adormecer. É como o obscurantismo, com consequência nos adultos, vive do medo, do rumor, da distorção, alimenta e cavalga a ignorância.

 

O ar do dia ensolarado e de límpida atmosfera, o vidro amplo, liso, perfeitamente fabricado, a água cristalina, mesmo que corra, permitem ver através de si, são transparentes. Deixam passar a luz.

A transparência deixa passar tudo, ver e ser visto com nitidez: a verdade, a mentira, o reflexo, a refração. Ela, assim, vai-nos enriquecendo de ferramentas que nos permitem ver e saber e criticar e analisar.

 

A transparência faz, proporciona, com que cada um aja como se estivesse a ser observado.

Dá poder. Dá responsabilidade. Gera respeito.

Informação é poder, com informação, formação generalizada, ajo e uso o poder com responsabilidade e respeito, entre semelhantes.

 

Se não houver black outs e a transparência for generalizada, a luz beneficia todos, todos teremos acesso a saber, conhecer pelos nossos próprios meios. E assim estaremos mais bem preparados para saber das coisas, compreendê-las, discuti-las, dar contributos. Sem intermediários que nos contam a sua verdade. Sem alguém com poder para decidir o que cada um pode ou não saber.

 

Sim, é utópico.

Haja luz.

 

Jorge Saraiva

 

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19.10.18

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Foto: Dolphins - Free-Photos

 

O meu elemento é a água, sempre foi, o que não será de estranhar e de ser natural, porque o meu signo é Peixes. Penso sempre na água como algo ligado às emoções, graças à sua transparência que faz com que todos os sentimentos ganhem fluidez, nutrição e força por onde passa. Daí se explique também o meu fascínio pelo Mar, que nunca me canso de o observar e, sobretudo, de o contemplar sempre que posso ouvir o seu espantoso silêncio e por ele deixar-me envolver, evadir-me até aos limites da minha imaginação.

Quando o vejo calmo e tranquilo, observando a sua condescendente mansidão, sinto-me tentado a entrar mar dentro, mergulhar nas suas águas profundas, límpidas e transparentes e ir conviver com as suas miríades habitantes. Só ele, o Mar, enquanto elemento da Natureza, é capaz de revelar através da sua infinita e genuína transparência as suas maravilhas e os seus encantos. É, sem dúvida, o maior reino de águas transparentes que se conhece no Universo, dir-se-ia uma porta aberta a todo o mundo, em que nele se pode entrar sem pedir licença, penetrar até aos seus confins infindáveis, o que nos permite desvendar os mistérios que tão ciosamente guarda. Ele é infinitamente grande, poderoso, dominador e misterioso, mas, porque é generoso, nem por isso deixa de exibir, de mostrar, através da sua enorme transparência, toda a vida maravilhosa que nele existe.

 

José Azevedo

 

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15.10.18

Background - Public Domain Pictures.jpg

Foto: Background - Public Domain Pictures

 

“Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem

E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,

E passa para o outro lado da minha alma...”

Fernando Pessoa

 

Sem bluff, ver logo a pessoa como é. Através dos gestos e palavras. Talvez mais do que faz e, se calhar, nem tanto como o faz. Talvez o que não faça e, nesse instante, o silêncio que estilhaça. Ver uma serenidade ou a indecisão que toma conta desse estar.

Uma terra que se sente revolvida à espera de ser cultivada. Os frutos e as plantas. Tomilhos e flores de borragem.

Contar contigo porque me dizes o que pensas a cada momento, ver essa liberdade, senti-la como partilhada comigo e podendo eu também respirar desse teu estar de cabelos soltos. Permitir-me deixar ir contigo.

Perguntar como será ser e estar assim de um modo simples, direto e quase desarmante, ser o que se é e como se sente.

Por vezes, atento sobre as amarras de uma invisível embarcação, como se se tratasse de um “navio de espelhos / não navega, cavalga” do Cesariny. E, nesse navio de espelhos, deambulamos por entre os fios de ouro envoltos em brumas e névoas ou quando o sol aparece, pelo ar que transpira das janelas que não conhecíamos encerradas, do lado de dentro.

Abrir os meus olhos ao outro e, nesse encontro, exalar uma mesma música que soa, de mim para ti. Chegando mesmo ao outro lado.

 

Maria João Enes

 

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12.10.18

2 Face.jpg

Foto: Face

 

Eu sentia, eu sabia. E ela perguntava-me: “Sabias o quê?”.

Sabia quando olhava para ti, sentia aquelas ditas “borboletas no estômago”, aquele friozinho que arrepiava até ao fundo da alma. Os meses iam passando e a paixão acentuava-se, nada diminuía, muito pelo contrário. O carinho que sentia era cada vez maior, a cumplicidade e o amor. Dizia-te muitas vezes que eras daquelas pessoas únicas, que dava para passar por ti como se nem estivesses presente. E tu rias à gargalhada, não entendias – dizias tu. Dizias que não eras nenhum fantasma, que eu estava a ver muitos filmes, como era possível passar através de alguém, e rias novamente. Eu ria-me também. Não, não era nada fantasmagórico, era uma maneira de te dizer que isso era uma das tuas melhores qualidades. Uma das coisas que mais admirava em ti, a tua transparência. Eras das poucas pessoas que conheço que eram exatamente aquilo que transpareciam. Que nos tranquiliza à primeira, que nos faz apaixonar sem medos, que nos transporta para outro mundo, um mundo mais leve, mais colorido. Coisas assim, nos dias de hoje, estão a ficar em vias de extinção. Tu rias-te quando dizia tal coisa. Porque a tua bondade às vezes era ingénua, mas esse olhar doce e ingénuo só me fazia amar-te ainda mais. Em ti eu sabia que podia confiar, sabia que me podia apoiar. Que podia ser sem medos. Sem segredos.

 

Digam-me vocês. Não é bom amar assim? Poder ser livre estando com alguém? Podermos ter a certeza da transparência da pessoa com quem vivemos, que amamos? Sim! Eu sinto-me uma sortuda. Amo-te “fantasmagoricamente”, dizia-te. E tu? Sorrisos com esse sorriso doce e ingénuo.

 

Inês Ramos

 

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8.10.18

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Foto: Driving - Jake Heckey

 

Nada é o que aparenta ser. Há sempre o reverso, a perspetiva contrária ou o outro lado da história.

Nem nós somos consensuais. Geramos impressões e opiniões díspares, multiplicando-nos pelos contextos e papéis assumidos. É assim que nos interligamos com o mundo e as suas diversas faces. E todos apreendemos a realidade através da subjetividade dos sentidos e dos significados atribuídos, construindo assim um quotidiano entre o preto e o branco.

Presos às conceções que ganham raízes, tornamo-nos incapazes de ver mais além, de encarar o outro e as (suas) circunstâncias, de buscar a verdade por detrás das magras aparências. Limitamo-nos à passividade, amealhando, sem contestar, tudo o que nos chega.

Mas há muito mais para além disso. Há que romper com esta falsa transparência, que se assume como janela para o interior do outro ou mesmo da verdade e afinal não é mais de que um espelho de nós mesmos e da nossa visão do mundo, não como ele é, mas como pensamos que seja.

 

Sara Silva

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