15.1.18

Joy - Erge.jpg

Foto: Joy - Erge

 

Mariam Vattalil era feliz a trabalhar com os pobres e oprimidos de Indore, na Índia. Vertia essa felicidade num sorriso fácil, do tamanho do mundo e à medida de cada um. A irmã Sorriso, assim era conhecida, balsamizava a dor dos sofridos, ajudava os desfavorecidos e integrava os expulsos da sociedade que ninguém queria. Chegavam-lhe desvalidos, vítimas da calhordice de seres abjetos que roubavam a dignidade aos pequenos agricultores, despojando-os das terras e obrigando-os a trabalhar no que já fora deles, a troco de salários vergonhosos.

Às vítimas, instava-as a lutar, aos dominadores, tentava sensibilizar. Ensinava aos pobres métodos agrícolas mais modernos de forma a rentabilizarem o esforço despendido. Mostrava-lhes as vantagens de saber ler e escrever, e sensibilizava-os para que enviassem os filhos à escola. Com as mulheres promovia grupos de autoajuda, transmitia-lhes noções básicas de educação, saúde e higiene. Incentivava-as a constituir pequenas poupanças, criar e gerir micronegócios. Mariam Vattalil era o rosto da esperança que faltava naquele ambiente de miséria.

 

Aos oprimidos não lhes é reconhecido o direito a ter esperança – se lhes fossem reconhecidos direitos não eram oprimidos – e a esperança deles era um perigo para a ordem instituída e para a paz podre que a sustentava, por isso, a comunidade Hindu e os proprietários locais que enriqueciam com a pobreza dos desfavorecidos, sentiam-se ameaçados. Primeiro tentaram convencer a jovem a deixar o lugar e a deixar de intervir, mas ela, determinada a cumprir a missão para a qual sentia que tinha sido escolhida, não obedeceu e continuou a fazer o seu trabalho junto dos mais necessitados. Convencidos de que não conseguiriam demovê-la, resolveram encomendar a morte de Vattalil. Samunder Singh aceitou fazer o serviço. Muniu-se de uma faca e, no autocarro em que Vattalil viajava para Indore, desferiu-lhe 54 facadas roubando-lhe a vida. Samunder foi julgado e a sentença ditou prisão perpétua.

 

Um horror difícil de descrever, muito pouco consentâneo com o tema proposto – beleza. Mas se o horror está presente nesta história, também é nele que a bondade do ser humano foi mestra e pincelou um quadro de rara beleza.

Samunder, depois de preso, foi abandonado por todos. A família, envergonhada, não quis saber dele e os que lhe encomendaram a morte de Vattalil, esqueceram-no. A privação de liberdade não o reeducou, transformou-se num ser vingativo, vivia atormentado com um único pensamento: fazer justiça pelas próprias mãos sobre aqueles que o enganaram e abandonaram.

Um dia, inesperadamente uma irmã da vítima Vattalil, visitou-o na prisão. Estava dada a primeira pincelada de bondade na negritude de uma tela que haveria de concluir-se colorida e de uma beleza impressionante. Com uma simples mas imensurável frase, o horror foi-se esbatendo. Frente a frente com o carrasco da irmã, ela abraçou-o e chamou-lhe irmão. A ação da família que tinha perdido um dos seus, de forma tão bárbara e violenta, não se ficou por esse gesto e continuou a surpreender-nos. Moveram influências, fizeram pedidos e conseguiram que a sentença fosse reduzida para onze anos.

 

Quando cumpriu a pena e foi libertado, Samunder procurou-os para agradecer tudo o que fizeram por ele. E com este gesto a tela ganhou novos tons, sobre ela caiu o vermelho sangue, diluído em lágrimas de uma mãe em sofrimento, mas ainda assim, com a grandeza que a individualizou, beijou as mãos do assassino porque sobre elas estava o sangue da sua filha.

Numa cerimónia recente dedicada a Vattalil, ele lá estava, na primeira fila, para a homenagear; mas a mais bela e reconhecida homenagem que ele lhe presta, ainda hoje, é a continuidade do trabalho que ela começou junto dos desfavorecidos de Indore.

Vidas que me inspiram e me aproximam desta tela colorida onde, em traço muito incerto, é certo, lanço o verde da esperança na humanidade.

 

Cidália Carvalho

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

> Alexandra Vaz

> Cidália Carvalho

> Ermelinda Macedo

> Fernando Couto

> Helena Rosa

> Inês Ramos

> Jorge Saraiva

> José Azevedo

> Maria João Enes

> Marisa Fernandes

> Rui Duarte

> Sara Silva

> Sónia Abrantes

> Teresa Teixeira

Janeiro 2018
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
13

14
16
17
18
20

21
23
24
25
27

28
30
31


Arquivo
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: